quarta-feira, 16 de abril de 2014

Dor de hoje é a mesma que amanhã

Não me venham falar. Não digam nada porque eu hoje não quero ouvir. Não sei nada. Não me perguntem nada. Não me questionem.
Não me enfrentes. Hoje não é um bom dia.
Talvez amanhã possa falar. Talvez amanhã eu lute contigo.
Hoje não. Hoje não contes com nada.
Hoje esquece que eu existo. Esquece tudo o que se passou.
Respira. Pois hoje não é amanhã, mas o amanhã vai ser o hoje um dia.
Um dia destes dias de hoje.
Dias não são dias. Hoje tu não me assustas. Porque hoje eu não existo e quem não existe, não morre. E quando não se morre, não se tem medo.
E só hoje eu não tenho medo. Por norma trago o medo no bolso, mas hoje e só hoje, ficou guardado na gaveta do amanhã.
Hoje eu vou gritar para que te cales. Hoje nada faz mais barulho que eu. Sou perita em barulho silencioso. Hoje vou calar o teu silêncio pois o meu falará mais alto.
Rebola nas tuas urtigas. Esfola-te como se hoje nada doesse. Hoje nada dói porque amanhã tudo cheira a morfina. Talvez hoje possas esmurrar-te quando já não aguentares o silêncio. Atira-te. A dor é psicologia, rainha do drama. Ela hoje não existe. Pois hoje eu não existo e eu sou dor. Dor que não vê, dor que não deixa respirar.
Hoje eu não sufoco nada. Não fales comigo, eu não vou responder.
Vamos esquecer tudo. O tempo é vago, mas não tanto como a minha cabeça. Esqueço tudo.
Amanhã eu talvez queira o mesmo que hoje. Hoje já é amanhã. O amanhã do ontem de hoje... Não consigo falar. Não digam nada.

Sem comentários:

Enviar um comentário