Não me venham falar. Não digam nada porque eu hoje não quero ouvir. Não sei nada. Não me perguntem nada. Não me questionem.
Não me enfrentes. Hoje não é um bom dia.
Talvez amanhã possa falar. Talvez amanhã eu lute contigo.
Hoje não. Hoje não contes com nada.
Hoje esquece que eu existo. Esquece tudo o que se passou.
Respira. Pois hoje não é amanhã, mas o amanhã vai ser o hoje um dia.
Um dia destes dias de hoje.
Dias não são dias. Hoje tu não me assustas. Porque hoje eu não existo e quem não existe, não morre. E quando não se morre, não se tem medo.
E só hoje eu não tenho medo. Por norma trago o medo no bolso, mas hoje e só hoje, ficou guardado na gaveta do amanhã.
Hoje eu vou gritar para que te cales. Hoje nada faz mais barulho que eu. Sou perita em barulho silencioso. Hoje vou calar o teu silêncio pois o meu falará mais alto.
Rebola nas tuas urtigas. Esfola-te como se hoje nada doesse. Hoje nada dói porque amanhã tudo cheira a morfina. Talvez hoje possas esmurrar-te quando já não aguentares o silêncio. Atira-te. A dor é psicologia, rainha do drama. Ela hoje não existe. Pois hoje eu não existo e eu sou dor. Dor que não vê, dor que não deixa respirar.
Hoje eu não sufoco nada. Não fales comigo, eu não vou responder.
Vamos esquecer tudo. O tempo é vago, mas não tanto como a minha cabeça. Esqueço tudo.
Amanhã eu talvez queira o mesmo que hoje. Hoje já é amanhã. O amanhã do ontem de hoje... Não consigo falar. Não digam nada.
quarta-feira, 16 de abril de 2014
Dor de hoje é a mesma que amanhã
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